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Mercado 28.01.2010
Enviar este Artigo APPLE IPAD Um mundo de conteúdos através do Apple iPad   Conhecidos que são os detalhes sobre as características do dispositivo iPad, anunciado a 27 de Janeiro pela Apple, convém agora reflectir sobre o impacto que se irá sentir no mercado de aplicações, conteúdos e criatividade. Algo que interessa a todos os profissionais de audiovisual, indústrias de entretenimento e produção de conteúdos em geral.   Na sequência do anúncio do Apple iPad muitos analistas e comentadores afirmaram já terem dúvidas quanto ao formato, características e potencial deste dispositivo, de tal forma se trata de um conceito novo – “revolucionário” nas palavras de Steve Jobs.
Sobretudo, muita gente recorda agora os fenómenos que foram o lançamento do iPod e do iPhone, afirmando terem dúvidas sobre se o iPad terá um comportamento semelhante, sobretudo em termos de aceitação pelos consumidores. Neste artigo partilhamos algumas ideias base sobre este assunto.

Do iPod ao iPad
Parece-me pertinente assinalar que, quando o iPod foi lançado pela Apple – numa altura ainda embrionária do comércio de música online, em Outubro de 2001 – a indiferença foi quase geral e foi apenas em 2003, quando a Apple reforçou a proposta com a loja iTunes que a notoriedade aumentou. Poucas pessoas se lembram do primeiro iPod, mas quando olhamos para ele hoje, parece-nos um dispositivo enorme, pesado, desinteressante, com o seu ecrã a preto e branco e roda de controlo limitada. Poucos anos depois, o iPod era um dispositivo completamente renovado, ganhou ecrã a cores, mais capacidade de memória e novas versões mais compactas e ligeiras, chegando actualmente ao formato iPod touch.
Mas aquilo que podemos constatar é que a Apple mudou a indústria da música para sempre e foi efectivamente a combinação da iniciativa pioneira da loja online iTunes com a respectiva aplicação para Mac e PC e com os dispositivos iPod que revolucionou o mercado.
Um processo algo semelhante pode ser recordado com o lançamento do iPhone em 2007.
Alguns reagiram ao seu lançamento com cepticismo, afirmando que a Apple seria incapaz de rivalizar com a Nokia e outros fabricantes de telefones móveis e que o mercado, sendo controlado pelos operadores de telecomunicações, não permitiria grande horizonte à proposta da Apple.
O iPhone é hoje um dispositivo móvel com capacidades que estão bem distantes daquelas que são oferecidas pela concorrência, tal foi a mudança de paradigma que veio proporcionar. A Apple vendeu já mais de 25 milhões de iPhones e todos os estudos de mercado indicam que a marca poderá facilmente chegar a uma quota de mercado que ronda os 30%. No entanto, muita gente tinha dúvidas quando viu o primeiro iPhone...
Mas, mais uma vez, a Apple mostrou que sabia conjugar todo o seu “ecossistema” de plataformas hardware e software para tornar no iPhone em algo muito mais do que um telefone ou um iPod com telefone ou um PDA multimédia, ou...
O iPhone constituiu uma plataforma revolucionária para a visão da Apple e, sobretudo, despertou a imaginação de milhares de utilizadores, programadores e empresas que viram finalmente concretizada a oportunidade de congregar num mesmo dispositivo portátil toda uma enorme oferta de conteúdos: jogos, música, vídeo, online media, redes sociais, etc. Desde o primeiro modelo, o iPhone evoluiu rapidamente em características e funcionalidades, oferecendo cada vez mais oportunidades às comunidades de “developers” e empresas de conteúdos que aderiram à plataforma e, sobretudo, à revolucionária App Store. Uma dura lição para as empresas de telemóveis que insistem em lançar modelos novos atrás de modelos novos, sem qualquer valor acrescentado.
Ao oferecer uma única plataforma simples, estável e evolutiva (actualizável continuamente por software e com novos serviços), sobre a qual os programadores podiam trabalhar, a Apple transformou o iPhone num dispositivo de apelo universal, suficientemente atraente, poderoso e flexível para servir tanto de controlador remoto Wi-Fi de mesas de iluminação, como de consola portátil para DJs, medidor de áudio, afinador de guitarra, processador de efeitos para voz, pauta virtual ou ecrã de karaoke...
Recentemente, até mesmo a Sony admitiu a universalidade do iPhone e iPod touch como plataforma ao lançar uma aplicação gratuita que permite servir de controlo remoto para os seus televisores Bravia...

iPad para acesso a conteúdos
É nesta conjuntura que a Apple lança o iPad e é neste contexto que interessa analisar bem o seu potencial no mercado. Penso que agora, depois de anunciadas as especificações e os preços iniciais, nem mesmos os mais cépticos duvidam de que o iPad vai vender rapidamente muitos milhões de unidades.
Por isso, é inútil discutir agora se devia ou não ter câmara, ter ou não saída de vídeo, ter ou não capacidades multitasking, leitor de cartões de memória, etc, etc.
A Apple criou, na prática, mais uma extensão para o seu “ecossistema” digital que é constituído por uma oferta de conteúdos online directamente a uma comunidade de utilizadores, conjugando computadores Mac e um sistema operativo imbatível com toda uma série de plataformas de distribuição de conteúdos e aplicações – iTunes store para música, programas de TV e filmes; App Store para aplicações de todo o tipo e nomeadamente jogos e acesso directo a conteúdos (informação e entretenimento); agora reforçada com a nova iBookstore para livros, assim como assinaturas de jornais e revistas.
Como “terminais” de acesso, os computadores Mac e a Apple TV para utilização em casa e no escritório e os terminais móveis, iPod touch, iPhone e agora o iPad completam a equação de forma imbatível, alimentados pelo conjunto de software e serviços que a Apple conjuga de forma ímpar. Um universo de acesso aos e pelos utilizadores que faz fluir uma economia digital real e que tem provado ser uma fórmula incrivelmente lucrativa para todas as partes envolvidas (seguramente para a Apple...).
Visto desta perspectiva, interessa pouco quais são as características actuais do iPad. Aquilo que interessa sim é aquilo que este tipo de terminal portátil vem acrescentar a esta equação no âmbito de aplicações e acesso a conteúdos e o modelo que poderá inspirar ao mercado, tal como o iPhone fez. Algo que, como já podemos constatar, o iPad da Apple faz de forma única, realmente revolucionária e a um preço muito acessível.
Basta comparar o preço anunciado da primeira geração iPad (entre 400 e 800 euros) com o que custa e o que faz um telemóvel topo de gama da Nokia, Sony Ericsson ou qualquer outra marca, assim como comparar um eBook reader actual como o Kindle da Amazon ou o Reader da Sony, para perceber que o valor apercebido para a primeira geração de utilizadores do iPad é gigantesco.
Para quem duvida do potencial das aplicações do iPad, basta também recordar que, há três anos atrás – quando surgiu o iPhone – ninguém conseguiu também adivinhar a importância e popularidade que as redes sociais iriam ganhar. Hoje, quando olhamos para o que representa o Facebook, por exemplo, torna-se claro como esta plataforma acertou em cheio, antecipando uma necessidade por parte dos consumidores que antes não existia. Hoje, todo o mercado olha para as redes sociais de uma forma deslumbrada, antecipando um potencial que ninguém sequer consegue contabilizar.
Esse é, aliás, um campo onde a Apple já não está sequer isolada e basta olhar para a estratégia da Google e das plataformas Android – bem como das eminentes revoluções que vão constituir o novo sistema operativo Google Chrome e o serviço Google Wave – para perceber como o iPad chega ao mercado na altura perfeita.

Porta para os media
Para os criadores de conteúdos, seja de filmes, programas de televisão, documentaristas, músicos, escritores, jornalistas, etc., o iPad vem finalmente concretizar o sonho de uma plataforma eficiente, instantânea e directa com o consumidor, seja qual for o formato de distribuição. Não admira que alguns tenham classificado este novo dispositivo, de forma algo sarcástica, como um “iPhone gigante”. É mesmo isso que o iPad faz: ampliar todo o poder e impacto de uma plataforma de comunicação pessoal e sem fios para uma dimensão “gigante” – e que é, ao mesmo tempo, complementar aos computadores portáteis e ao iPhone.
Para músicos, o iPad vai permitir comunicar com os consumidores de forma completamente inovadora, dando agora uma perspectiva inteiramente nova aos serviços iTunes Album, por exemplo, uma das muitas inovações introduzidas pelo iTunes 9 e que permite voltar a ter “capas de disco”, letras, fotografias mas também vídeos e conteúdos extra à música.
Para os produtores de conteúdos – estações de televisão, rádio e editores de livros, jornais e revistas, ou mesmo órgãos de informação online – o iPad vem abrir finalmente um caminho que faltava na forma como os consumidores podem aceder e interagir à informação, nomeadamente viabilizando modelos de subscrição que têm faltado na economia da web. Oferecendo não apenas as vantagens de um eBook reader e de um terminal de acesso à web, mas também uma completa experiência de reprodutor multimédia de altíssima qualidade.
Aqui é preciso não esquecer que as experiências que a Apple tem vindo a realizar com o Apple TV, por exemplo, interligadas ao serviço iTunes, abrem caminho a novas formas de distribuição que são realmente o “missing-link” para transformar as redes de dados no principal veículo de distribuição, complementando a lógica broadcast e oferecendo finalmente uma verdadeira experiência personalizada e on-demand com que estas indústrias vêm sonhando há muito tempo.
A recente aquisição da empresa de streaming de música, Lala, indica claramente que a Apple tem noção da importância dos diferentes formatos de distribuição online e da rápida evolução em largura de banda que as redes de dados em cabo, fibra-óptica e wireless têm tido em todo o mundo. Enquanto que num dispositivo de tipo Apple TV a marca tem noção de que terá que continuar a insistir na fórmula download de ficheiros, para serviços como a música, perante o sucesso do acesso em streaming como o Spotify e outros (veja-se o YouTube), torna-se claro que vamos assistir a uma evolução nos serviços que passa simplesmente pelo potenciar do acesso streaming universal, combinado com o cloud computing para distribuir informação armazenada de forma remota. Não temos dúvida de que a combinação das plataformas Mac, iPhone, iPod e iPad permite viabilizar da melhor maneira o acesso a este tipo de serviços – em que um utilizador passa a não ter que se preocupar com o armazenamento local de centenas ou milhares de álbuns e canções, criando simplesmente uma colecção virtual pessoal, à qual acede quando deseja, através de streaming. Algo que é potenciado pela tecnologia agora comprada à Lala e que, tal como o serviço Spotify, permite que o utilizador possa transferir temporariamente um conjunto de músicas para uma ou seis horas em que vai estar a viajar, por exemplo, renovando posteriormente essa mesma colecção armazenada localmente assim que se voltar a ligar a uma qualquer rede: 3G, Wi-Fi ou outra.
Para transformar estes serviços da própria Apple ou directamente dos produtores de conteúdos (das cadeias de televisão, por exemplo), apenas faltava aquilo que as apps do iPhone já podiam oferecer mas que o pequeno ecrã e capacidades de processamento limitadas do iPhone ainda não concretizavam totalmente.
Este “ecossistema” digital que a Apple veio completar com o iPad – com o seu impressionante ecrã táctil de formato A4 extremamente leve – constitui uma oportunidade ímpar para qualquer organização que crie conteúdos e os queira distribuir de uma forma eficiente, instantânea e económica.
Muitas outras possibilidades e novos formatos de distribuição estarão certamente por descobrir – por exemplo para as rádios que se encontram há anos confrontadas com o labirinto da distribuição digital.
Em todas estas áreas de media, o iPad veio concretizar, mais uma vez, uma visão brilhante e de vanguarda que só a equipa de Steve Jobs tem sabido tornar realidade. A todos os níveis.
Estamos seguramente apenas no princípio de algo revolucionário!
Vamos acompanhar de perto esta revolução e esperamos rapidamente poder oferecer os nossos próprios conteúdos directamente para o vosso iPad.
 João Martins


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