Enviar este Artigo
O ANO DO CINEMA 3D
2009 é já o maior ano de sempre em termos de receitas para a indústria de cinema
De acordo com os dados disponibilizados por quase todas as publicações especializadas de cinema, publicadas nos Estados Unidos e na Europa, o ano 2009 é já o mais lucrativo de sempre para a indústria de cinema, superando as receitas recorde obtidas em 2008. O fenómeno da exibição de filmes em digital e estereoscopia 3D são responsáveis por um crescimento que se estima entre 20 e 30% de receitas adicionais, dependendo da região do globo. Já é considerado certo que a produção épica de James Cameron “Avatar” se irá converter no filme mais lucrativo da história do cinema, batendo as receitas de "Titanic", o anterior recordista de bilheteira, após os primeiros dois meses de exibição.
É evidente que o crescimento das receitas de bilheteira de cinema resulta directamente do sucesso das grandes produções do estúdios de Hollywood, os quais geraram mais filmes e mais receita em 2009 do que alguma vez na sua história. De acordo com diversas fontes de análise do mercado de cinema, pela primeira vez na história, o mercado de cinema nos Estados Unidos e Canadá irá superar os 10.000 milhões de dólares de receita.
Se olharmos para o facto de as receitas classificadas como “overseas” por estas empresas de análise, corresponderem quase ao dobro das receitas obtidas pelos filmes na América do Norte (incrementadas ainda pela valorização de outras moedas, como o Euro, contra o dólar), a indústria de exibição de cinema viveu em 2009 um Ano de Ouro. Se esse incremento resulta da própria oferta de Hollywood, do incremento na oferta em exibição, nomeadamente com a conversão das salas para digital e a introdução do 3D, ou simplesmente de um ciclo semelhante ao que já se verificou noutros períodos de recessão económica, é matéria que apenas um estudo mais alargado poderá revelar. O que é certo é que 2010 promete continuar este crescimento, numa altura em que se espera que dupliquem o número de estreias de filmes em 3D, com algumas contribuições de produções europeias, por exemplo, e com a conversão das salas de cinema para digital, praticamente a triplicar ou quadruplicar em todo o mundo.
Este incremento de espectadores nas salas, assim como as receitas adicionais obtidas com o sucesso de grandes títulos é também um contributo importante para reforçar a confiança dos exibidores e distribuidores, actualmente a necessitar de um forte aumento nos recursos de financiamento para suprir os necessários investimentos de conversão das salas de cinema para digital. Para as empresas de integração de equipamentos de exibição cinematográficos, os próximos quatro a cinco anos avizinham-se com uma época de actividade nunca vista, existindo actualmente mais de 20.000 servidores e projectores digitais encomendados às empresas especializadas neste segmento: Sony com os seus projectores SXRD 4K na liderança, com mais de 80% das encomendas globais, seguida da Barco, Christie e NEC, actualmente com projectores de cinema digital 2K, mas todas com esperança de poderem começar a fornecer os seus modelos DLP 4K com a mais recente tecnologia da Texas Instruments. As empresas especializadas em soluções 3D, tal como a RealD, Dolby e XPand, entre outras, são as maiores beneficiadas, com os seus sistemas a complementar cerca de 40% das instalações de cinema digital actualmente em curso.
A instalação de sistemas de exibição digital e projecção 3D nas salas de cinema, segundo apontam quase todos os grandes grupos distribuidores, irá também contribuir para importantes receitas adicionais nas salas já equipadas, abrindo-se cada vez mais a possibilidade de estes espaços servirem para projectar grandes eventos desportivos e culturais em directo – tal como irá acontecer no próximo Mundial de Futebol na África do Sul – assim como acolher eventos empresariais em horários em que normalmente as salas de cinema não são utilizadas.
Os recordistas das receitas
De acordo com os dados compilados pela Produção Profissional a partir dos principais indicadores de receita de exibição nas salas de cinema, o mês de Janeiro de 2009 permitiu desde logo antecipar receitas extraordinárias em bilheteira, com os Estados Unidos e Canadá a assinalar mais de 1000 milhões, pela primeira vez na sua história.
A estreia de filmes 3D, tal como “Avatar” e “Sherlock Holmes” (filme que beneficiou fortemente do efeito promocional criado pela super-produção de James Cameron, levando muitos espectadores a regressar aos cinemas para repetir a experiência 3D), fez com que o mês de Dezembro de 2009 se transformasse já no período mais lucrativo de sempre na história da indústria de cinema.
O ano de 2009 viu o filme “Transformers: Revenge of the Fallen” a transformar-se no maior êxito de bilheteira de Verão, gerando mais de 400 milhões de dólares de receita no mercado doméstico e alcançando uma facturação global de 835 milhões USD, transformando-o no 21º filme mais lucrativo de sempre, ainda antes de surgir no mercado de home-video.
O filme “Harry Potter and the Half-Blood Prince”, o mais recente episódio da lucrativa saga, atingiu o nono lugar nos filmes mais lucrativos de todos os tempos, alcançando mais de 900 milhões de dólares de receita em todo o mundo.
Mas nada disso é relevante face ao fenómeno em que se transformou a produção da Twentieth Century Fox, “Avatar 3D”, actualmente o nº1 em receitas de bilheteira em todo o mundo que, no prazo de quatro semanas tinha já superado as receitas domésticas de “Transformers 2: Revenge of the Fallen”, estando actualmente na segunda posição do ranking dos filmes com maiores receitas de bilheteira de todos os tempos, com quase 1200 milhões de dólares.
Tendo em conta o período relativamente curto que decorreu desde a estreia de “Avatar”, nunca houve nada assim na história do cinema. Para além de ser um dos filmes mais caros da história do cinema e um dos maiores investimentos na história do entretenimento – o filme em si poderá ter custado mais de 250 milhões de dólares em produção, com mais 250 milhões de dólares investidos no marketing associado – a super-produção de James Cameron conseguiu receitas de 350 milhões de dólares nas duas primeiras semanas de exibição, ultrapassando a estreia do mais recente filme da saga “Pirates of the Caribbean” e o último episódio da trilogia “Lord of the Rings”.
Agora, “Avatar” prepara-se para alcançar o recorde absoluto da história do cinema, atingido antes por “Titanic”, a outra super-produção de Cameron que detém a posição cimeira no top de bilheteira, com receitas de 1835 milhões de dólares.
A contribuir para o excelente ano nas salas de cinema em 2009 estiveram também filmes como “Up” da Disney/Pixar, “The Twilight Saga: New Moon”, “The Hangover”, “Star Trek”, “The Blind Side”, “Monsters vs Aliens” e “Ice Age: Dawn of the Dinosaurs”.
Curiosamente, os filmes mais lucrativos do ano foram precisamente os mais caros em produção, enquanto os filmes que menores receitas geraram e que foram os maiores “flops” são precisamente aqueles que contam com os actores mais caros, provando que a receita de apostar tudo nos grandes nomes com grandes “cachets” está longe de ser a ideal neste período de euforia com a tecnologia.
O grande desafio que a indústria de cinema agora enfrenta, tendo em conta que as receitas recorde de bilheteira nas salas de cinema foram acompanhadas também pelos maiores volumes de pirataria na Internet – agravada pelos fenómenos aberrantes do “file-sharing” e dos Torrents – passa por capitalizar também no mercado de home-cinema. Enquanto nos anos anteriores as receitas de DVD, serviços on-demand e exibição na televisão representaram para os estúdios de cinema uma fonte de receitas quase tão importante como as salas de cinema, nesta era do Blu-ray (cujos volumes de vendas também não param de crescer), o desafio consiste agora em perceber como será possível transferir o impacto do visionamento em 3D para estes suportes.
A indústria electrónica de consumo e a Blu-Ray Disc Association encontram-se actualmente empenhadas em promover as normas que irão permitir reproduzir a experiência 3D nos lares, tal se pode ver pelos anúncios que saíram do certame CES 2010 em Las Vegas. No entanto, será quase impossível que os produtos agora anunciados cheguem ao mercado a tempo de capitalizar no sucesso de “Avatar”.
E daí, talvez não... João Martins
|